22 março 2017

AS SETE LÁGRIMAS DE PAI-PRETO


Foi numa noite estranha, aquela noite queda; estranhas vibrações penetravam no meu Ser Mental e me faziam ansiado por algo, que pouco a pouco se fazia definir...

Era um quê desconhecido, mas sentia-o, como se estivesse em comunhão com minha alma, e externava a sensação de um silencioso pranto...

Quem do mundo Astral emocionava assim um pobre “eu”? Não o soube, até adormecer... e “sonhar”...

Vi meu “duplo” transportar-se, atraído por cânticos que falavam de Aruanda, Estrela Guia Zambi, eram as vozes da SENHORA DA LUZ VELADA , dessa UMBANDA DE TODOS NÓS que chamavam seus filhos de fé...

E fui visitando Cabanas e Tendas, onde multidões desfilavam, mas, surpreso ficava, com aquela “visão” que em cada um eu “via”, invariavelmente, num canto, pitando, um triste preto velho chorava.
De seus “olhos” molhados, esquisitas lágrimas desciam-lhe pelas faces, não sei porque, contei-as...foram sete. Na incontida vontade de saber, aproximei-me e interroguei-o: fala meu Pai Preto, diz ao teu filho, por que externas assim tão visível dor?

E ele, suave, respondeu: Estás vendo esta multidão que entra e saí? As lágrimas contadas distribuídas estão a cada uma delas.

A primeira eu dei a estes indiferentes que aqui vem em busca de distração, na curiosidade de ver, bisbilhotar, para saírem ironizando aquilo que suas mentes ofuscadas não podem conceber...

Outra, a esses eternos duvidosos que acreditam desacreditando, na expectativa de um “milagre” que os façam alcançar aquilo que seus próprios merecimentos negam.

E mais outra foi para esses que crêem, porém, numa crença cega, escrava de seus interesses estreitos. São os que vivem eternamente tratando de “casos” nascentes uns após outros...
E outra mais distribui aos maus, aqueles que somente procuram a Umbanda em busca de vingança, desejam sempre prejudicar a um seu semelhante – eles pensam que nós, os Guias, somos veículos de suas mazelas, paixões , e temos obrigação de fazer o que pedem... pobres almas, que das brumas ainda não saíram.

Assim, vai lembrando bem, a quinta lágrima foi diretamente aos frios e calculistas – não crêem, nem descrêem: sabem que existe uma força e procuram se beneficiar dela de qualquer forma. Cuida-se deles, não conhecem a palavra gratidão, negarão amanhã até que conheceram uma casa de Umbanda...

Chegam suaves, têm o riso e o elogio na flor dos lábios, são fáceis, muito fáceis; mas se olhares bem seus semblantes, verás escrito em letras claras: creio na tua Umbanda, nos teus Caboclos e no teu Zambi, mas somente se vencerem o “meu caso”, ou me curarem “disso ou daquilo” ...

A sexta lágrima eu a dei aos fúteis que andam de Tenda em Tenda, não acreditam em nada, buscam aconchegos e conchavos; seus olhos revelam um interesse diferente, sei bem o que eles buscam.

E a sétima, filho, notaste como foi grande e como deslizou pesada? Foi a ÚLTIMA LÁGRIMA, aquela que “vive” nos "olhos" de todos os “pretos-velhos”; Fiz doação dessa, aos vaidosos, cheios de empáfia, para que lavem suas máscaras e todos possam vê-los como realmente são...

“Cegos, guias de Cegos”, andam se exibindo com a Banda, tal e qual mariposas em torno da luz; essa mesma luz que eles não conseguem VER, porque só visam a exteriorização de seus próprios “egos”.

“Olhai-os” bem, vede como suas fisionomias são turvas e desconfiadas; observai-os quando falam “doutrinando”; suas vozes são ocas, dizem tudo de “cor e salteado”, numa linguagem sem calor, cantando loas aos nossos Guias e Protetores, em conselhos e conceitos de caridade, essa mesma caridade que não fazem, aferrados ao conforto da matéria e a gula do vil metal. Eles não têm convicção.

Assim, filho meu, foi para esses todos, que viste cair, uma a uma, as SETE LÁGRIMAS DE PAI-PRETO! Então, com minha alma em pranto, tornei a perguntar: não tens mais nada a dizer, Pai Preto? E daquela “forma velha”, vi um véu caindo e num clarão imenso que ofuscava tanto, ouvi mais uma vez...

“Mando a luz da minha transfiguração, para aqueles que esquecidos pensam que estão... ELES FORMAM A MAIOR DESSAS MULTIDÕES...”

São os humildes, os simples, estão na Umbanda pela Umbanda, na confiança pela razão...SÃO OS SEUS FILHOS DE FÉ.

São também os “aparelhos”, trabalhadores, silenciosos, cujas ferramentas se chamam DOM e FÉ, e seus salários quase sempre são pagos com uma só moeda, que traduz o seu valor numa única palavra – a INGRATIDÃO...

W. W. da Matta e Silva (Mestre Yapacani)
[originalmente publicada no livro Umbanda de Todos Nós, 2ª edição (1960) - Livraria Freitas Bastos].


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O QUE SÃO OGÃNS?

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Ser Ogam é muito mais do que ser aquela pessoa no fundo do Terreiro, tocando pontos para as entidades, médiuns e assistentes. Ser Ogam é participar de forma efetiva e consciente nos trabalhos. Isso exige conhecimento, humildade, concentração, responsabilidade, mediunidade e amor. O Ogam é o responsável pelo canto, pelo toque, pela sustentação, pela parte física e equilíbrio harmônico dos rituais. Diferente do que muita gente pensa, um Ogam pode incorporar, porém, a sua mediunidade manifesta-se normalmente, de forma diferente do restante do corpo mediúnico. Manifesta, principalmente, através da intuição, das suas mãos, braços e cordas vocais. Os atabaques, quando devidamente consagrados e ativados pelos Ogãns, são verdadeiros instrumentos de auxílio espiritual, pois são capazes de canalizar, concentrar e irradiar energias que tanto podem ser movimentadas pelo próprio Ogam como pelas entidades de trabalho para os mais diversos fins