28 janeiro 2014

Pai Bobó de Oyá - descendente do Axé Oxumarê, fundador do Ilê Oyá Mesan Orun (SP), um dos primeiros terreiros de Candomblé baiano em sua expansão para o Sudeste.


Pai Bobó de Oyá - descendente do Axé Oxumarê, fundador do Ilê Oyá Mesan Orun (SP), um dos primeiros terreiros de Candomblé baiano em sua expansão para o Sudeste.

A trajetória de Pai Bobó no Candomblé teve início em 14 de junho de 1.933, quando Yewa de Mãe Cotinha, a primeira mulher a ascender ao trono da Casa de Òsùmárè, informou que ele havia sido escolhido por Yánsàn, para carregar consigo a força dos ventos, elemento primordial desse Òrìsà.
Todavia, era uma época de grande repressão. O Candomblé era perseguido pela polícia e alvejado por outras denominações religiosas e, internamente, o machismo dos Ogans e predominância da figura feminina nos Terreiros da Bahia, cerceava a iniciação de homens Adosu – o caso de Pai Bobó.
A iniciação de José Bispo como Adosu, era fundamental, pois o Òrìsà já havia dito que seria necessário. No entanto, como submetê-lo a todos os processos de iniciação, sem expô-lo aos comentários dos Ogans da época, bem como, aos olhares recriminatórios da soberania feminina?
Yewa de Mae Cotinha sempre muito astuta criou uma estratégia. Durante uma cerimonia interna, Jose Bispo foi apontado como Ogan, era a justificativa para ele entrar no Honkó e fazer suas obrigações. Dessa forma ele foi recolhido, passando por todo o processo de iniciação como um iyawo. No chamado dia do orùko, algo que no Terreiro de Òsùmarè sempre foi restrito, teve na ocasião um número ainda menor de participantes, sendo permitido vislumbrar a saída, somente as pessoas com os cargos mais elevados da Casa. Nascia assim, Oya Gere, Orùko de Pai Bobó, nome que representa o resgate da sua origem e herança africana.
Porém, para que ele não sofresse com a discriminação da época, havia a necessidade de apresentá-lo à comunidade. Assim, José Bispo saiu nos braços de Oya Biyi, Yánsàn de Maria da Encarnação, mãe biológica de Mãe Simplícia de Ògún. Era uma forma de assegurar a determinação do Òrìsà e salvaguardar aquele jovem dos comentários jocosos (além de ser homem iniciado – adosu, filho de um Òrìsà feminino – Ayaba, algo quase inconcebível à época).
Mesmo antes de ser iniciado, Bobó se mostrava uma pessoa extremamente ligada ao Candomblé. Nascido e criado nas redondezas da antiga Mata Escura, atual bairro da Federação, frequentava diversos Terreiros da chamada Linha 15 e estava sempre disposto a aprender. A sua fé era tamanha, que ele não se cansava de repetir: "Quem sou eu para enfrentar o vento? Se é da vontade de Yánsàn, minha vida é dela", relatam os mais antigos da Casa de Òsùmàrè.
A sua dedicação ao Asè e o carinho com a sua casa, rendeu a Pai Bobó o acesso a vários ensinamentos. Era um filho zeloso e estava sempre presente nas obrigações do Terreiro. O ditado foi confirmado. "Um bom filho, com certeza será um bom pai".
Assim, na década de 50, 17 anos após ter sido iniciado, José Bispo dos Santos, saiu de Salvador rumo ao sudeste do País, precisamente ao Rio de Janeiro, vivendo por lá durante sete anos. No Rio, Pai Bobó se destacou como grande sacerdote, estabelecendo fortes laços de amizades com os Babalòrìsàs da região, tais como Joãozinho da Gomeia e Waldomiro Baiano.
Apesar de ter conquistado o respeito no Rio de Janeiro, foi em São Paulo que ele fincou suas raízes e, em 1.957, fundou uma das primeiras Casas de Candomblé do Estado, o Ilé Oya Mésan Orùn.
Foram 33 anos conduzindo o seu Terreiro com grande dedicação, fé e amor, iniciando centenas e centenas de filhos. Pai Bobó ganhou notoriedade sendo respeitado e reverenciado como grande sacerdote do Candomblé em SP, preservando os ensinamentos ora aprendidos em Salvador.
Com efeito, podemos asseverar que José Bispo dos Santos, o querido Pai Bobó, foi um dos grandes responsáveis pela expansão do Candomblé da Bahia para o Brasil. Hoje, seus filhos espalhados por todo o território nacional, reverenciam o seu nome e sua tradição, contribuindo assim, para a perpetuação da sua história.
Em 1.993, Pai Bobó foi levado pelos ventos de sua mãe Yánsàn, retornando para o lugar onde a vida se reinicia. Em verdade, Pai Bobó voltou para os braços de Oya, mas a força, energia e o grande Asè de Oya Gere, continuam vivos, não somente no Terreiro de Òsùmàrè, mas em cada filho desse que foi, um dos maiores sacerdotes da história do Candomblé.
Terreiro de Òsùmàrè
 

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O QUE SÃO OGÃNS?

O QUE SÃO OGÃNS?
Ser Ogam é muito mais do que ser aquela pessoa no fundo do Terreiro, tocando pontos para as entidades, médiuns e assistentes. Ser Ogam é participar de forma efetiva e consciente nos trabalhos. Isso exige conhecimento, humildade, concentração, responsabilidade, mediunidade e amor. O Ogam é o responsável pelo canto, pelo toque, pela sustentação, pela parte física e equilíbrio harmônico dos rituais. Diferente do que muita gente pensa, um Ogam pode incorporar, porém, a sua mediunidade manifesta-se normalmente, de forma diferente do restante do corpo mediúnico. Manifesta, principalmente, através da intuição, das suas mãos, braços e cordas vocais. Os atabaques, quando devidamente consagrados e ativados pelos Ogãns, são verdadeiros instrumentos de auxílio espiritual, pois são capazes de canalizar, concentrar e irradiar energias que tanto podem ser movimentadas pelo próprio Ogam como pelas entidades de trabalho para os mais diversos fins